
Eu gosto:
-bicudos quentes
-a minha boneca preta
-ler o jornal no chao
-ir buscar livros à biblioteca
-brincar com as bonecas de papel
-andar no triciclo do meu mano
-passar ferias na Casa Grande de Cimo de Vila
...
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Créditos


29 Maio 1922 - 7 Nov 2009
A tia Alice
Coitada... nunca teve sorte na vida: o marido era pouco de trabalhar, dormia de dia vadiava de noite.
Mesmo assim conseguiram ter uma mercearia tipo tasca e a rapariga, de apenas 26 anos, com os dois filhos pequenos lá conseguia ir ganhando algum dinheirito para as despesas da casa.
O filho mais velho, de 2 anitos apenas, nunca teve um carinho do pai, que o detestava, motivo pelo qual quase foi criado pela avó materna.A menina, linda, loirinha de olhos muito claros era uma bonequinha, e dessa ele ja gostava, chamava-lhe a "minha menina".
Um domingo, ele disse para a mulher: arranja-te se quizeres e vai a casa da tua mae.
Ela ficou toda contente pois ele nunca queria que ela saisse de casa. Lá foram os tres, a menina ao colo do pai, que nao se cansou de brincar com ela todo o caminho.
Depois de lá chegarem ele disse-lhe: se quizeres vai ver a procissao com as tuas irmas e logo à noite vai para casa que eu chego mais tarde, vou ajudar o meu tio a fazer umas coisas que ele me pediu.
Assim aconteceu uma tarde muito bem passada para as duas. Ao fim do dia foram para casa e ao chegar lá a rapariga encontrou tudo virado do avesso e notou a falta de algumas coisas, logo pensando: assaltaram-me a casa! Foi ter com uma vizinha e perguntou: Senhora Aurélia notou alguma coisa ou alguem hoje à tarde aqui em minha casa? Ao que ela respondeu: só vi o senhor Valdemar sair com umas trouxas de roupa...
Estava tudo explicado: o marido deixou-a com os dois filhos nos braços.
Que vida sofrida ela teve!
Lá foi ela recambiada para casa da mae outra vez, mas agora com mais duas crianças, que tentaram ser felizes como puderam.
Mais tarde o tribunal decidiu que o pai veria os filhos aos sabados, motivo porque o tio Joaquim os levou até ao parque para o 1º encontro.
O pai nao apareceu e as crianças nunca mais la foram.
Mais ou menos 15 anos depois receberam a noticia que o pai morreu num acidente de mota.
Todos se vestiram de luto, os filhos porque a isso foram obrigados pela avó que era muito rígida, mas a revolta do rapaz era tao grande, que mais tarde quando se casou nenhum dos seus filhos levou o apelido Henriques...
Remember, remember the 15th of November...1947
A "Cortina de Ferro"

Entre 1945 e 1961, aproximadamente 3.6 milhões de pessoas deixaram Berlim da zona do Leste Soviético, causando dificuldades crescentes da liderança do SED, o partido comunista de Alemanha Oriental. A metade desta corrente constante de refugiados partiu via Berlim Oeste. Aproximadamente quinhentas mil pessoas cruzaram as fronteiras cada dia em ambas as direcções, permitindo comparar condições de vida dos dois lados. Em 1960 sozinhas, aproximadamente 360 000 pessoas fizeram um movimento permanente ao Oeste. A RDA esteve à beira do colapso social e economico.

No início da manhã do dia 13 de Agosto de 1961, num domingo, as barreiras temporárias foram levantadas nos limites de sector que separam Berlim do Leste e do Oeste, e as unidades de polícia e de transporte, junto com membros de milícias de "funcionários", montaram guarda e começaram a esticar rolos do arame farpado e nos dias seguintes construída uma parede de pedra sólida, por funcionários de construção de Berlim do Leste. Muitas pessoas foram desalojadas das suas casas já em 1961 – não só em Bernauer Strasse, mas também em outras áreas limítrofes.

Ha 48 anos foi construido o Muro de Berlim tambem conhecido pela "Cortina de Ferro". Claro que apenas tinhamos acesso ao que realmente interessava aos governantes da altura mas arranjava-se sempre um tempinho para ouvir rádio altas horas da madrugada para se ficar a saber mais alguma coisinha...
Um crime do Estado Novo esquecido ha 45 anos
A Igreja queria transferir o jovem padre de Lourosa. As mulheres da terra não deixaram. No dia 14 de Outubro de 1964, centenas de GNR cercaram a aldeia, mataram duas jovens e feriram mais 20 e Lourosa ficou com a fama de «antro de comunistas».
Pelas 11h00 da manhã do dia 14 de Outubro de 1964, centenas de soldados da GNR, muitos deles armados com metralhadoras, cercaram a aldeia de Lourosa, no concelho de Santa Maria da Feira. Traziam consigo várias ambulâncias, indicando que se preparavam para um confronto potencialmente violento.
Que ameaça representava a pequena povoação de Lourosa, já então conhecida pelas suas fábricas corticeiras, para que o regime tenha montado uma tão gigantesca operação repressiva? Na verdade, nenhuma. A população desejava simplesmente conservar o seu padre, que a hierarquia da Igreja pretendia transferir. Durante algumas semanas, as mulheres de Lourosa organizaram uma vigília permanente, 24 sobre 24 horas, para garantir que ninguém lhes levava o seu pároco. Faziam turnos, com a conivência dos patrões das fábricas, que as deixavam largar o trabalho, e do próprio presidente da junta de freguesia.
Tudo começara no ano anterior, quando o jovem padre Damião, de 26 anos, viera para Lourosa coadjuvar o velho sacerdote da freguesia, Benjamim. Com a morte deste último, em Junho de 1964, Damião assumiu a paróquia, para contentamento da população, que gostava deste padre que visitava as fábricas e só cobrava honorários por baptizados, casamentos ou missas fúnebres a quem tinha meios para os pagar.
Um dia, por meados de Setembro, chega a Lourosa a notícia de que o administrador apostólico do Porto, Florentino de Andrade Sousa, que substituía o então exilado bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, ordenara a transferência de Damião. A população não se conforma. Começa então um braço-de-ferro com as autoridades eclesiásticas, que irá ter um desfecho sangrento a 14 de Outubro, no mesmo dia em que Martin Luther King, de quem poucos habitantes de Lourosa teriam então ouvido falar, recebia o Nobel da Paz.
Por motivos difíceis de explicar, poucos souberam desta matança, nem sequer depois do 25 de Abril de 1974. Mas não restam dúvidas de que a GNR matou duas mulheres, nenhuma delas, aliás, envolvida na vigília, e que baleou mais umas 20, que seriam depois transportadas para os hospitais do Porto.
Margarida Santos, uma das alvejadas, passou três meses no Hospital de S. João. Conta que saiu à rua por curiosidade, a ver o que se passava, e que foi apanhada pelo tiroteio da GNR. Assistida pelo marido, que a acompanhava, foi depois transportada para o Porto e conseguiu sobreviver. Ainda teve tempo de ver tombar perto de si a sua conterrânea Maria de Lurdes de Oliveira, de 17 anos, que teve menos sorte e foi mortalmente atingida. Caiu junto a umas alminhas, onde ainda hoje algumas pessoas da terra, a cada 14 de Outubro, vão colocar velas e rezar.
A algumas centenas de metros, noutro dos muitos caminhos que iam dar à igreja, todos eles barrados pela GNR, Rosa Vilar da Silva regressava a casa, vinda do trabalho. Foi alvejada na cabeça e teve morte imediata. Faria 21 anos no mês seguinte e estava grávida. "A Rosa despegava às 11 e vinha todos os dias a casa fazer o comer", diz Maria Alice Cosme, hoje com 76 anos, garantindo que a vítima "nem sequer estava metida na vigília". Em 1945, tal como em 2009, o dia 14 de Outubro calhou a uma quarta-feira. Rosa ia casar-se no sábado seguinte.
O tiroteio, que se estendeu por toda a aldeia, durou duas ou três horas, até que, finalmente, a GNR partiu, levando consigo o padre. "Havia muita gente ferida, a tirar balas dos braços, da barriga", recorda Maria Alice. Uma bomba adormecida
Reconstituir com algum detalhe os acontecimentos do dia 14 de Outubro não é fácil. A imprensa daépoca não pôde noticiar o assunto e muitos dos habitantes de Lourosa que testemunharam a matança não querem reavivar, 45 anos depois, um episódio doloroso e que se esforçaram por enterrar. Acresce que praticamente ninguém terá tido uma perspectiva global do que estava a passar-se: cada um assistiu apenas ao que ocorreu no local onde se encontrava nessa manhã.
Na manhã de 14 de Outubro, Américo vinha a descer o caminho do Calvário, que ia ter ao largo da igreja. Dirigia-se à sociedade columbofila de Lourosa, cujo bar era gerido por um seu irmao. O pai de ambos tambem le estava, a dar uma ajuda ao filho. A associaçao ficava em frente à igreja e tinha paredes meias com o Café Central, que ainda hoje existe, mas que, na época, tinha um grande pátio à entrada.
Depois de ter estado algumas semanas no centro paroquial, guardado pelas mulheres da terra, o padre Damião tinha-se instalado, uns dias antes, na casa de uma senhora da aldeia, D. Altamira, que morava por cima do dito Café Central. A vigília mudara-se, pois, para o pátio do café.
Todo o dia e toda a noite, mantinha-se ali um grupo de mulheres, a quem a população trazia alimentos e bebidas. Quando havia alguma novidade a dar aos habitantes, ou se aparecia algum desconhecido a rondar nas imediações, os sinos da igreja tocavam a rebate e todas as operárias saíam das fábricas e acorriam ao local da vigília.
Américo vinha mandado pela mãe, que, ao ver passar a GNR em camiões militares, receou que o marido pudesse ter alguma reacção impensada. Mas, ao aproximar-se do largo da povoação, o rapaz encontrou, a tapar-lhe o caminho, "uns 20 ou 30 guardas, com grandes capacetes e armas aperradas". Como não podia passar, atravessou uns silvados e entrou pelas traseiras da casa onde o pai se encontrava. Este enfiou-o numa caixa, e foi dentro dela, sem poder assistir a nada - mas ouvindo "um grande tiroteio" -, que Américo viveu o seu 14 de Outubro. Quando finalmente as coisas se acalmaram e pôde sair, ainda viu, estendida no chão, Rosa Vilar da Silva, que fora alvejada ali perto. Não sabia ainda que Lurdes de Oliveira, filha de um primo do seu pai, tivera a mesma sorte.
Américo diz que a primeira coisa que a GNR fez foi deitar a mão ao homem encarregado de tocar os sinos, e congratula-se por isso, já que, doutro modo, centenas de operárias teriam saído das fábricas e a catástrofe poderia ter sido muito mais grave. Também nunca ouviu dizer que as mulheres tenham esboçado qualquer resistência, e está convencido de que não existia a menor motivação política por trás do movimento. Damião era um padre com uma atitude democrática, mas não constava que fosse do reviralho, como então se dizia.
Uma das mulheres que foram feridas no tiroteio, D. Dorinda, contou a Rosa Silva uma história um pouco diferente. Tinha 14 anos e, tal como Américo, já trabalhava na cortiça. Diz que ouviu tocar os sinos e que, por isso mesmo, saiu com as restantes trabalhadoras para ver o que se passava. Também elas encontraram a GNR a tapar o caminho e, ao que afirma, algumas mulheres atiraram-lhes pedras. Um dos guardas ausentou-se então para telefonar a pedir ordens, e, passado uns momentos, a população foi avisada de que, a partir daquele momento, os soldados atirariam a matar. Atingiram de imediato uma mulher nas pernas e impediram que lhe fosse prestado auxílio. Seguiu-se uma rajada de tiros e Dorinda foi apanhada pelo ricochete de uma bala, tendo acabado por ser assistida numa ambulância que já se encontrava no local.
Há também versões diferentes sobre a posição assumida pelo próprio padre Damião. Uns dizem que o padre tentou convencer a população a deixá-lo partir, garantindo que procuraria persuadir os seus superiores a permitir-lhe que voltasse. Mas, segundo Alice Cosme, Damião terá indirectamente contribuído para o movimento que se formou, ao, alegadamente, ter dito na missa que, "se as mulheres de Lourosa quisessem, ele não iria embora". Damião, actualmente pároco em Agrela, ainda é vivo e o seu testemunho poderia ser muito esclarecedor, masnão quer falar sobre o caso.
Hoje com idade muito avançada, está também vivo aquele que era, na época, o seu superior directo, o padre Julião Pires Valente, vigário de Paços de Brandão, que, nos dias imediatamente anteriores à tragédia, tentou falar com Damião na casa onde este se encontrava. Numa breve declaração a Rosa Silva, confirma a tentativa, mas diz que não chegou a sair do carro, porque se sentiu ameaçado - as mulheres batiam-lhe com os guarda-chuvas no tejadilho -, e que se limitou a informar da situação o bispo do Porto.
Enquanto durou a vigília, os habitantes de Lourosa foram várias vezes avisados de que estavam a pisar o risco e que poderiam sofrer consequências desagradáveis. Veiga de Macedo, que fora ministro das Corporações de Salazar e era natural da região, dava-se com vários industriais de Lourosa e, segundo Américo Teixeira, terá dito a alguns deles: "Olhai o que fazeis, que isto já cheira mal, já estais assinalados a vermelho como uma aldeia problemática."
Fora já este mesmo padre Julião que, mal se formara o movimento contra a transferência de Damião, requerera a intervenção das autoridades, segundo se depreende de uma nota que o Governo Civil de Aveiro fez publicar n"O Comércio do Porto, a 17 de Outubro: "A autoridade concelhia foi desde logo posta ao corrente dos acontecimentos pelo reverendo vigário do concelho, que solicitou a necessária intervenção policial." A nota adianta que, "depois do último convite à boa razão, a GNR procedeu à libertação do reverendo padre", e lamenta que, para responder "aos diversos ataques e às pedradas da população enfurecida", tenha tido de disparar "alguns tiros para o ar" e que, "na luta", tenham "aparecido duas mulheres gravemente feridas que, lamentavelmente, vieram a falecer".
Sujeita a censura, a imprensa não pôde dar outra versão dos acontecimentos, mas a história correu, tendo mesmo chegado às comunidades de emigrantes lourosenses no Brasil e na Venezuela. Já em Novembro, o Correio da Feira publicou uma pequena nota intitulada "Explicação", dando conta de que o jornal tinha recebido muitas cartas e telefonemas de "amigos e assinantes" de Lourosa, e também dos "filhos de Lourosa" no estrangeiro, estranhando que não tivesse sido feita "qualquer referência ao que de anormal ali ocorreu recentemente". O Correio da Feira garante que "sente profundamente o que ocorreu", mas sem a menor referência concreta à ocorrência em causa.
Houve, no entanto, um jornal que contou o essencial da história, embora não tenham sido provavelmente muitos os lourosenses que o leram. No seu número de Novembro de 1964, o Avante!clandestino inclui um artigo, com o título "Um crime premeditado", que abre assim: "Como é já do conhecimento geral, no passado dia 16 (a data correcta é 14), a vila da Lourosa foi atingida pela fúria do governo salazarista. O sangue inocente de duas mulheres e uma criança (possível alusão à gravidez de Rosa Vilar da Silva) e, segundo se afirma, de mais duas pessoas, e ainda de cerca de duas dezenas de feridos, alguns dos quais gravemente, correu nas ruas da laboriosa vila do concelho de Vila da Feira." E o texto prossegue: "Porquê tão nefando crime? Simplesmente porque a população desejava que lhe deixassem o padre da freguesia, que, em vez de transformar a paróquia em centro de exploração, se esforçava por ajudar os mais necessitados." O Avante! termina apelando à população de Lourosa que se mantenha unida "para exigir o castigo dos criminosos e para que sejam concedidas indemnizações às famílias das vítimas".
É natural que o PCP tenha divulgado um episódio que embaraçava o regime. Mas era uma luta de motivações religiosas e na qual não tinha tido qualquer influência, de modo que a imprensa do partido não voltou a referir o assunto, nem procurou transformar as duas vítimas mortais em mártires do fascismo.
No entanto, se ignorarmos a repressão nas colónias, foi um dos crimes mais bárbaros e despropositados do Estado Novo. O historiador Fernando Rosas, especialista no período, diz que, embora fossem frequentes os incidentes em que as populações resistiam à transferência de padres, não recorda nada com a dimensão deste caso de Lourosa, que desconhecia.
Mas, apesar de reconhecer a singularidade do episódio, e sublinhe o facto invulgar de ter sido a Igreja a solicitar a intervenção policial, lembra que se viviam então "anos de chumbo" e que se trata de "um período de grande repressão", que inclui "o assassinato de Humberto Delgado, o encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores e a prisão de muitos estudantes, que, pela primeira vez, começam a ser torturados na cadeia".
Que os lourosenses, depois da repressão brutal de 14 de Outubro, se tenham calado, não surpreende. O que é bastante mais estranho é que, logo após o 25 de Abril, quando toda a gente recordava os crimes do salazarismo, a história tenha permanecido por contar. Há várias explicações possíveis: os anos que tinham decorrido, o facto de muitos protagonistas ainda estarem vivos - incluindo, porventura, os guardas que dispararam as armas que mataram Rosa e Lurdes -, ou mesmo o facto de Lourosa ter tido, durante o PREC, uma sucessão de padres "esquerdistas", que a população aceitou muito mal e dos quais pode ter querido esconder um episódio que, de algum modo, legitimaria o radicalismo ideológico que alegadamente levavam para o púlpito.
Em 1989, o lourosense José Lima editou um pequeno opúsculo, de tom assumidamente panfletário, no qual narra o essencial do que se passou a 14 de Outubro, mas o texto quase não teve divulgação, e mesmo na actual cidade de Lourosa serão poucos os que alguma vez o leram.
Alice Cosme diz que, muitos anos depois dos acontecimentos de 1964, os habitantes tinham ainda fama de "terroristas" e eram olhados de revés pelas populações das freguesias vizinhas. "Quando havia futebol em Lamas, os polícias que iam vigiar o jogo tinham de passar por aqui e, quando chegavam, como eram poucos, mantinham sempre as espingardas apontadas, com medo do povo."
18 Agosto 1951
Ingrata esta vida, que nos faz amar e partir.
Mas que seríamos nós sem o amor? Que seríamos nós sem as memorias afectivas?
Recordar-te-ei para sempre - quando ouvir as rolas, os sinos da igreja, as Pascoas e os Natais.
Saudades dos que planam na linha do horizonte.
Saudades de ti já.
(para Olguita)
com carinho
a. 
sempre achei esta foto do Paizinho muito parecida com o...

Errol Flynn:

(mas aqui para nós, o Paizinho era muito mais charmoso!!!)
Ainda hoje exibo orgulhosa a pequena fotografia a preto e branco.
Ele já tinha cabelo, quase todo, branco, e eu ainda na escola primária andava.
Gostava de o ter conhecido com o cabelo às ondinhas. Um galã. Um autêntico artista de cinema.
Nunca mais esqueci o dia da foto. De mão dada, seguia altiva. Tínhamos ido à missa à Capela da Nª Sº da Ajuda. Depois fomos ver o mar, e foi aqui que apareceu o inesperado fotógrafo.
Pena ser a preto e branco. Levava metade do meu cabelo apanhado no alto da cabeça, onde era notório o grande laçarote branco. O vestido era rosa bebé, com umas aplicações, desde os ombros até à zona do umbigo, onde passava uma fita de seda igualmente rosa. Levava ainda um casaco de malha quente e de cor azul clara, feito pela mãezinha. Os sapatos eram pretos e de verniz, enfiados numas límpidas meias brancas.
Gostava de ver as fotografias a preto e branco que eram guardadas no álbum. Apresentava sempre um ar charmoso – os ossos ainda não se queixavam. Tinha realmente ar de galã, talvez tivesse sido assim que teve frutos na conquista do seu amor.
Um dia contei-lhe que em tempos tinha imitado a sua assinatura, para ele não ver as más notas da escola. Sorriu. O meu desabafo foi uma maneira de me redimir. Também lhe contei daquela vez, em que estando em casa sozinha com o Dito, distraímo-nos e começamos a jogar à bola. Azar, acertei em cheio no relógio de parede, que caiu – já não há relógios assim, pois não sofreu muitos danos. Até àquela data sempre pensou que o relógio tinha caído por desleixo do prego.
Quando me cabia a mim, a vez de limpar o pó no quarto deles, abria a porta do guarda-fatos e perdia-me entre o cheiro da roupa domingueira, sempre perfumada.
Foi muito bom tê-lo como pai – jamais o trocaria.
Foi bom vê-lo como avô.
(para os netos do meu pai)
com carinho
a.
rosamar
(este texto foi escrito pela minha irma mais nova)
23 Julho 2009
CHEIROS (Parte I)
Não caíra o Governo de Salazar. Ele simplesmente morrera.
Levei de recomendações de casa para que, quando chegasse, não contasse nada à Vóvó.

Finalmente os cheiros, caruma, eucalipto, o estrume do gado do vizinho…mas o melhor ainda estava para vir: o cheiro a leite fresco que de certeza ia ter à minha espera.
Era sempre agradável ir para a aldeia.
Adorava os cozinhados da minha avó. Ainda hoje recordo aqueles croquetes de batata (em alguns locais chamam-lhe trouxas de carne), douradinhos e acabados de fazer. Sentia-me uma princesa. A mesa girava à minha volta, ou melhor dizendo à volta dos meus paladares.
Não havia frigorífico, mas havia um compartimento muito fresco e cheio de prateleiras onde se guardavam os alimentos. Não havia supermercado mas sim a Herdade, onde tinha de tudo. Olhavam-me sempre de alto a baixo a fim de admirarem ora os meus olhos, ora o cabelo, ora o tom de pele (pois, a menina tem ido para a praia? – quem é? interrogavam-se – ah, é a mais nova da Lena de Espinho). A Herdade tinha um cheiro muito característico. Nunca encontrei ao longo da minha existência uma miscelânea de cheiros como lá. Era uma mistura de café acabado de moer-sabão clarim-açúcar refinado- bacias de plástico-marmelada-e outros que nunca soube identificar. Aqui também tinha uns maravilhosos rolos de chocolate maciço.
Para mim o dia era dividido em quatro: a manhã onde se respirava a frescura da noite, ao meio do dia com um calor insuportável e do qual nunca fui adicta, o maravilhoso fim da tarde onde às vezes me era permitido regar e podia molhar os pés em água fria sem levar um raspanete, e o anoitecer. Cada parte do dia tinha o seu cheiro. Ao fim da tarde também costumava ir para a cave (chamavam-lhe loja) andar no baloiço que estava pendurado nas traves da casa. Voava até as minhas tranças começarem a bater no tecto...a partir daí abrandava. Era um local bem fresco em contrapartida do calor de verão. Talvez a terra batida ajudasse àquela agradável temperatura.
Naquele tempo não deveria haver salmonelas, pois eu comia as gemadas que queria. Aliás, era uma obrigação a ingestão diária de gemadas.
No dia a seguir à minha chegada, tinha sempre por obrigação de ir às Cavadas, a casa da Fatinha, para me pesar. O objectivo da estadia na aldeia era de aumentar peso. Às vezes ia buscar a Nené a casa para irmos juntas – talvez fosse uma forma dela se distrair.

Era ja noite. Abri o portão, subi a ladeira, e ali estava ela estendendo-me os braços sempre tão carinhosos. Beijou- me. Senti um aconchego enorme naquele roçar de face na face e daquele hálito a maçã.
- Vóvó!!!!! O Salazar morreu!!!
bjs
a.
(para todos os que fizeram parte da minha infância)

a visita
Sempre impecavelmente aprumada, outrora andaria numa azafama, entre a loja, que ficava na frente da casa, e os afazeres domesticos.
Recebia-nos com alegria, mas nao nos dava prioridade, primeiro estava o negocio.
.
Tudo estava irreconhecivel. Agora tinhamos que ultrapassar várias rotundas até chegar à aldeia. Foi bom a Ró ter ido comigo. Nas entrelinhas dos seus profundos suspiros de “ai-meu-deus”, dava-me instruções: vira aqui, vira ali - caso contrário ter-me-ia perdido.
O jardim da frente da casa também estava encurtado, por causa da estrada. Ainda bem que sobrara espaço para manter as roseiras.
Recuei no tempo.
.
Às vezes conseguimos recuar no tempo e ficarmos inocentes. Conseguimos imaginar que tinha sido bom ali. Noutra altura teria conseguido recuar até àquela tarde de férias de verão quente.
A igreja ainda era visível dali.
Sentamo-nos todos à roda de uma mesa no jardim. Havida limonada fresca, com água do poço. O som das rolas chegavam até nós, pena que o das galinhas também.
Os pátios tinham sido regados com água para tornar tudo mais fresco, Depois do fausto almoço, e sem vontade para lancharmos, havia quem já se atrevesse a elaborar a ementa do jantar. Depois de algumas sugestões eliminadas conseguiu-se reduzir o menu para uma salada russa (que iria ser servida bem fria) com uns filetes de pescada fresca. Para a sobremesa haveria pão-de-ló e melão fresco.
Fui muito feliz naquela casa.
.
Recuei no tempo e senti pesar.
Abrimos o portão, torneamos a casa.
A empregada tratava da roupa e disse – ela hoje está melhorzinha, já desceu mas subiu de novo.
.
Quando me viu, no seu ar canónico tentou esboçar um sorriso de alegria. Talvez até fosse um grande sorriso, já não tinha força para o transmitir por esgar.
.
(para O.)
a.

A Olguita
Saíamos sempre, ao domingo. Afinal, morávamos numa cidadezinha turística.
Mesmo durante a semana, não era estranho irmos até à beira-mar, onde o picadeiro enchia na zona de verão.
A música tocava na Av. 8, emitida a partir de uma cabine de som. Scott Mckenzie convidava-nos a partir até S. Francisco ao lado de uma Gigliola Cinquetti que jurava a pés juntos "Dio como ti amo".
Roberto Carlos, entre outros estava no auge.
Um dia rezei para que ele me viesse buscar. Não disse nada a ninguém, para não dar azar e esperei por ele. De certeza que esperei sentada, caso contrário tinha feito varizes pelo corpo todo.
Nunca íamos com qualquer roupa para o picadeiro.
Quer de Inverno quer de Verão, deveríamos vestir a rigor. Mas no Verão era tudo mais bonito. Pelo Sol e pela roupa mais alegre.
Muitas vezes ía para Cesár passar as férias e "os" de lá vinham para cá.
A Fatinha, a Nené e a Olguita eram visitas assíduas na época balnear.
Traziam sempre imensos víveres, além da bagagem pessoal.
Lembro-me da bagagem da Olguita. Era sem dúvida a maior – digna de uma actriz de cinema.
- Para que queres essa porcaria toda? - perguntava eu?
- Nem é muita coisa…
Eu olhava para aquelas malas……Era cintos diferentes para cada toilette, sapatos, lenços, blusas, casacos…para não falar nos cremes. Para o Sol, para o dia, para a noite, para as rugas... credooooo - pensava eu, que passava bem com as minhas calças de ganga.
Antes de sairmos ela escovava 50 vezes o cabelo para ficar a brilhar. Tinha que esperar sempre por ela.
Depois…depois…valia a espera.
Orgulhava-me que todos olhassem para ela.
Orgulhava-me de a ter como prima.
a.
(para a Olguita, com todo o meu carinho)
Dia D
Era um prazer a visita da D. Angelina.
Foi triste quando ela foi morar para Coimbra, mas a Alicinha tinha sido colocada em Coimbra para o estágio de medicina e seria tudo mais fácil. Agora me lembro, a Alicinha costumava sentar na cama o esqueleto, que lhe servia de estudo.
A D. Angelina tinha uma voz muito agradável, e era uma boa contadora de histórias. Deliciava-me a ouvir episódios ora de Lisboa, ora de Carcavelos e até da Maria do Mar, filha de uns amigos lá de Lisboa.
Gostava de ir a casa dela. Tinha uma gaiola, para mim gigantesca, cheia de periquitos. Era de um formato cilíndrico e terminava em cone. Encantava-me os sons daqueles pássaros. Ah, lembrei -me agora da vasta colecção de caixa de fósforos do Sr. Mário. Muitas delas tinham sido trazidas das colónias enquanto prestava serviço militar.
Graças a ela, os estufados passaram a ser feitos num relativo curto espaço de tempo, com a introdução da panela de pressão. A mãezinha rendeu-se ao efeito mágico deste utilitário doméstico. Ficou tudo muito mais simples, se bem que de vez em quando fosse necessário dar um jeitinho à tampa da panela para a mesma funcionar.
Às vezes vinha passar uns dias lá a casa e, se o sr. Mário estivesse de serviço viria ter com ela no fim de semana. Eram dias de azáfama doméstica diferente.
Tinha chegado há dois dias.
Quando acordei preparei-me para a escola e enquanto tomava o pequeno almoço, fui surpreendida por um burburinho. Algo se passava. Estava tudo com o ouvido colado ao rádio.
- D. Helena, vou fazer as malas e parto no próximo comboio. Não sei se ele estará bem – o sr. Mário tinha o posto de major, e ela receava por ele
Entretanto o paizinho, que já tinha saído há muito, voltou a casa e disse:
- Nada de ajuntamentos. Se virem ajuntamentos afastem-se.
Eu queria compreender a situação. Sabia que tinha havido uma revolução, mas nada mais sabia.
Na escola foi-nos explicado o que se passava por uma professora:
- Portugal vivia num regime fascista. Só havia uma opção política e quem fosse contra era torturado e preso. Ao longo destes dias, ser-vos-á explicado melhor, quer em casa, quer aqui na escola. Podem sair. Podem ir para a rua para comemorarem a Liberdade.
Não se metam em confusões. Ser livre não é fazer tudo o que queremos. Não temos direito de ir contra a liberdade do outro. Temos o direito a partir de agora de lutarmos pelos nossos ideais. Não estranhem se virem alguns dos vossos professores, pelas ruas de Espinho gritando liberdade. Eu vou estar lá.
Nada voltou a ser igual.
Um dia o meu filho perguntou-me como era Portugal antes do 25 de Abril.
Respondi: era a preto e branco
Para os meus irmãos,
Com carinho
a.
(mais um texto da caçulinha)
25 abril 2009
A Páscoa
O cheiro a fresias dilatava-me as narinas. Nos canteiros da Titia, espalhados pelas escadas e pelo corredor ladeado de flores, procurava os primeiros rebentos. Quando encontrava ficava deleitada. Inigualável aquele perfume. Fresco e suave, nostálgico até – jamais terei palavras para o definir.
Era o prenuncio da primavera e a Páscoa estava ali ao virar da esquina.
Primeiro vinha o Domingo de Ramos.
Neste dia levávamos à igreja um ramo com alecrim e oliveira para ser benzido no fim da missa das 10,00H.
Tudo era programado atempadamente.
A casa era limpa a fundo para receber a visita do compasso.
Cortinas, reposteiros, janelas… tudo era passado a pente fino.
As carpetes e tapetes eram lavados no grande tanque e o chão depois de minuciosamente esfregado era encerado. Quando a cera secava puxava-se o lustro. Ficaria lindo. O corredor brilhava logo de manhã quando entrava luz pelo quarto do Dito.
Havia ainda as cerimónias religiosas a que era obrigada a ir.
Nunca lhes achei muita graça, eram deprimentes, isso sim. Contudo, devo referir aqui dois aspectos que sempre me cativavam: as vestes cor de lilás e o cheiro a incenso.
Às 15,00H da Sexta-feira Santa deveríamos todos fazer um minuto de silêncio (às vezes emitia um som, muito baixinho, só para ver se me acontecia algo. Bah, continuava inteirinha, nada de novo acontecia. As minhas tranças continuavam no sitio, os meus joelhos esmurrados e o estúpido som das galinhas a cacarejar entrava pela casa.
Bom, passemos à parte que eu mais gostava: a cozinha. Adorava participar nas tarefas culinárias. A Ró batia as claras, a Lena e eu mexíamos as gemas com o açúcar e até o Dito ajudava na confecção dos cocos. Talvez por ser a mais velha cabia à Ró a tarefa de amassar o preparado para as bolinhas de chocolate. Invejava-a. Aquela tarefa deveria ser minha. Vá-se lá saber porquê mas nunca enjoava doces. (era quase obrigatório fazer-se: bolas de chocolate, quadradinhos de chocolate – feitos com a receita do bolo de noiva – bolo de coco, pudim francês, bolo de prata, bolinhos de coco, pão-de-ló, bolo de mármore, bolo mulato – conhecido entre irmãos pelo bolo leitoso – rolo recheado de geleia e talvez mais algum que não me ocorre agora).
Havia também regueifa da Páscoa, aliás havia sempre variadíssimos pedaços de regueifas da Páscoa, a mãezinha gostava de ter várias “amostras” da mesma. Tinham um sabor muito característico, talvez com um toque de Vinho do Porto.
Uma vez o paizinho e a Lena atreveram-se a fazer regueifa. Estava tão boa, mas tão boa aquela massa. Lindas! Ainda as vejo, por cozer, dispostas na mesa com tampo de mármore que havia na cozinha, já pinceladas de ovo e prontas para irem ao forno. Foi pena não terem desenvolvido. Conforme entraram, conforme saíram. Eram assim tipo umas regueifas anãs. Deu para rir apesar de todos lamentarmos o seu fraco, ou nenhum, crescimento. Porem, devo dizer que nunca comi regueifa tão boa.
A sala de jantar era preparada de véspera para a visita pascal.
A mesa grande era trocada por uma mais pequena para dar espaço à circulação do compasso. A “toalha da Páscoa”, imaculadamente branca, era então colocada.
No centro havia uma floreira em vidro, de cor salmão, com algumas flores e os verdes benzidos no anterior Domingo.
Havia os pratinhos rendilhados onde se colocavam amêndoas. Num deles ficava uma laranja golpeada com o folar para o padre. Noutro um pouco maior aparecia o Vinho do Porto e os cálices. Parte dos bolos eram cortados em fatias e dispostas em pratinhos. Lamentavelmente só podíamos comer os doces, depois do compasso passar.
Devo confessar que na noite Sábado para Domingo eu esgueirava-me até à porta da sala, fechada a sete chaves, e deliciava-me com bolinhas de chocolate. Não sei se alguém reparava, mas ficavam em numero idêntico ao que encontrava à entrada, só que um pouco mais pequenas.
Por fim vinha a excitação da entrada do compasso. A parte mais irritante era eu ter que beijar a cruz. Tentava sempre pôr a boca de lado para não lhe tocar – de relâmpago passavam-me sempre pela frente milhares de bocas sem dentes e de hálito suspeito.
Sobre o compasso, recordo ainda o som da sineta a aproximar-se (claro que às vezes era o simples sino que havia lá em casa e que alguém se lembrava de enganar a mãezinha, que toda aflita se aprontava de imediato a dizer: Eduardo, olha os verdes!!!! Espalha os verdes à porta!!!)
Para os meus pais e para os meus irmãos,
Com carinho
a.
(este texto foi escrito pela minha irma mais nova)
12 abril 2009
Os Segredos De Cozinha da Vovó Rosa

Acontecimento há muito ansiado por todos, a concretização de um sonho, «e assim, Espinho não permitirá que o seu nome, gravado a letras de ouro na História da Aviação Nacional, se desvaneça, tornando-o ainda mais brilhante, mostrando que não foi inglório o esforço e a dedicação daqueles que se foram e "se vão da morte libertando", em holocausto à AVIAÇÃO».
"o Paizinho sempre gostou muito de tirar fotografias. o Evaristo emprestava a maquina e faziamos a pose. a minha mana diz que eu tenho cara de sargento, ao menos podia dar-me uma patente mais alta... 
2.2.1922
"quando a Candelaria chora está o Inverno fora
quando a Candelaria ri está o Inverno para vir"
detesto andar de guarda-chuva!!!
quando eu era miuda, nao havia certas "mordomias" que ha agora. portanto tínhamos que usar o que os pais nos metiam nas maos e era uma sorte termos as coisas, pois haviam muitos que queriam e nao tinham. em relaçao aos ditos acessórios, tive sempre o azar de me calhar uns enormes, pretos, feiosos, uns autenticos estrupicios, que eu DETESTAVA.
entao nao é que um dia de Inverno, ao sair da missa, o vento arrancou-me o guarda-chuva enorme que eu tinha nesse dia e levou aquele desgraçado para o telhado da casa ao lado da Igreja.
toda a gente a dizer: anda embora, sai da chuva, olha que ainda apanhas uma doença... mas eu queria ficar à espera que o estrupicio viesse parar cá abaixo para eu apresentar em casa, nao fosse a minha Mae ainda me dar uma surra.
por acaso tive sorte, dessa vez nao apanhei e nem foi preciso levar o esqueleto do dito cujo!

pois... a outra tambem imaginou Eddy Merckx e fez a coreografia para a volta ao quarteirao
atreveu-se à estrada
deslizou...deu a curva com uma velocidade incrivel... até se estatelar no meio das silvas.
nunca tivera jeito para andar de bicicleta
SENHORA DA PAZ
(Miraculosa)
Nossa Senhora, Mãe de Jesus,
Dá-nos a graça da tua luz.
Virgem Maria, Divina Flor,
Dá-nos a graça do teu amor.
Miraculosa, Rainha dos céus
Sob o teu manto tecido de luz,
Faz com que a guerra se acabe na terra
E haja, entre os homens, a paz de Jesus.
Nossa Senhora, Mãe de Jesus,
Dá-nos a graça da tua luz.
Virgem Maria, Divina Flor,
Dá-nos a esmola do teu amor.
Se em teu regaço, bendita Mãe,
Toda a amargura remédio tem,
As nossas almas pedem que vás,
Junto da guerra, fazer a paz!
Pelas crianças, flores em botão.
Pelos velhinhos sem lar nem pão
Pelos soldados que à guerra vão...
Senhora escuta nossa oração!
Miraculosa, Rainha dos céus
Sob o teu manto tecido de luz,
Faz com que a guerra se acabe na terra
E haja, entre os homens, a paz de Jesus.
Fausto Neves (musica)
Carlos de Moraes (letra)
O original da musica está no Santuario de Fatima e foi entregue ha 22 anos por Mário Neves, filho de Fausto Neves
Oriundo de uma família com tradições musicais, Fausto Neves (neto do maestro Fausto Neves, autor da musica "Senhora da Paz" - Miraculosa) iniciou os seus estudos na Academia de Música de Espinho — sua terra natal — e completou-os no Conservatório de Música do Porto, na Universidade Laval (Canadá) e no Conservatório de Música de Genève (Suíça). Nesta última escola, concluiu o Prémio de Virtuosidade, aprofundou também os seus conhecimentos nos domínios da Música de Câmara e da Análise Musical e foi admitido no seu corpo docente. Discípulo de Helena Costa, estudou ainda com os pianistas Robert Weizs, no Canadá, e Harry Datyner, na Suíça.
Frequentou seminários com Sequeira Costa, Moura Castro, Josef Palenicek e Jörg Demus. Apresentando-se em público desde muito cedo, estreou-se como solista da Orquestra Sinfónica do Porto aos catorze anos, sob a direcção do maestro Silva Pereira. É convidado frequente das mais importantes organizações e festivais de música nacionais, tendo actuado ainda na Suíça, no Canadá, em Espanha, na França, no Brasil e na Itália, e gravado para a RTP, RDP e TV Cultura (Brasil). Colaborou ainda com os maestros Arpad Gerezs, Gunther Arglebe, Graça Moura, Álvaro Salazar, Kamen Goleminov e Marc Tardue. Dos inúmeros instrumentistas com quem colaborou em Música de Câmara destacam-se a violoncelista Gisela Neves (CD "Alla Danza"), o pianista Álvaro Teixeira Lopes e, integrando o quarteto de dois pianos e percussão, o pianista Pedro Burmester e os percussionistas Miguel Bernat e Manuel Campos.
A sua actividade docente desenrolou-se nos Conservatórios de Música de Sion e de Genève (Suíça), no Conservatório de Música do Porto, na Academia de Música de Espinho, na Escola Superior de Música do Porto, na Escola Profissional de Música de Espinho e na Universidade de Aveiro. Foi assistente da pianista Helena Costa nos Cursos de Música de Espinho e é solicitado frequentemente a reger Cursos de Interpretação e de Pedagogia Pianísticas em Portugal e no estrangeiro. Detentor do 1º Prémio do Concurso "Cidade da Covilhã", entre outras recompensas, é regularmente convidado a integrar júris de concursos nacionais e internacionais.
No dia vinte e cinco de Abril do ano de mil novecentos e noventa e nove, reuniu em Sessão Extraordinária, a Assembleia Municipal, na sua sala de reuniões, pelas onze horas e trinta minutos, com a seguinte ordem de trabalhos:
Ponto Único: - Comemoração dos 25 anos do 25 de Abril.
FLÁVIO BASTOS (PS): "Exmo. Senhor Presidente da Assembleia Municipal de Espinho; Exmo. Senhor Presidente da Câmara de Espinho; Senhores Vereadores; Caros Colegas desta Assembleia; Minhas Senhores; Meus Senhores; É para mim uma honra falar em nome da bancada do Partido Socialista, nesta Sessão Comemorativa das Bodas de Prata do 25 de Abril. Esta data representa na História de Portugal, um feito tão importante como o 1º de Dezembro de 1640, quando um grupo de patriotas, reconquistaram a Independência de Portugal aos espanhóis. Foi o 25 de Abril de 1974, que possibilitou a "Liberdade", após cinquenta anos de regime fascista, de uma ditadura repressiva, para todos aqueles que não professassem as mesmas ideias totalitárias de Salazar. Para esses, existia só a prisão, sofrendo no corpo as maiores sevícias, agressões, o que levou alguns até á morte, ou então à deportação para Angra do Heroísmo, S. Tomé e Príncipe, Timor ou o terrível Tarrafal. Tantos foram os que partiram e não voltaram nunca mais. Falo com emoção, pois tive familiares que sofreram tudo isso, só porque nunca se vergaram à ditadura. Sempre foi essa a conduta da minha família, não podia eu deixar se ser uma excepção. Sou um modesto "patriota" que sofreu também algumas pressões e interrogatórios policiais. Orgulho-me de nunca ter vergado a qualquer tipo de ditadura. Desde a candidatura do General Norton de Matos e de todas as candidaturas democráticas, tenho até hoje feito parte das comissões eleitorais e participado em campanhas. Por isso nós Socialistas sentimo-nos felizes por pertencermos hoje a um País democrático, que faz parte da Comunidade Europeia, contrariando o "orgulhosamente sós", de tão má memória. O Portugal de hoje acompanha o desenvolvimento Europeu. Todos reconhecemos que nesta caminhada, o nosso país tem sabido superar quase todas as dificuldades, após tantos anos de atraso. Podemos afirmar que os nossos jovens podem finalmente aspirar a uma vida melhor e que nós os "jovens da 3º idade", somos olhados como seres humanos, dignos e úteis a uma sociedade que se quer solidária. Para terminar, saudamos todos os democratas que se bateram pela democracia, antes e depois do 25 do Abril, não esquecendo aqueles que já partiram do nosso convívio. Homens como: Dr. Gomes de Almeida, Professor Mário Vilarinho, Dr. Amadeu Morais, Dr. Joaquim Pinheiro de Morais, António Russo, Álvaro Padrão, Jaime Cruz, Francisco Duarte, Francisco Resende, Professor Ruano, Nogueira da Silva, Capitão Bacelar, Professor Domingos, António Alberto Alves, Santo Tirso, José dos Jornais, Carlos Morais, Afonso Xabregas, Dr. Pinto de Matos, e tantos outros. Mas felizmente que alguns ainda se encontram entre nós: Artur Pereira Bártolo, Apolinário Gonçalves, Manuel Moreira dos Santos, António Gaio, Augusto Soares, Dr. José Augusto Ferreira de Campos, José Varges, Fernando Menezes e poderia falar de alguns mais. É justo prestar-se homenagem àqueles que lutaram em alturas em que era tão difícil ser-se democrata. Se falarmos de "Abril", se falarmos de "Mudança" , não posso esquecer os valorosos "Capitães de Abril". Sem eles, o nosso País não estaria a viver este dia, nem estaríamos reunidos aqui. Lembro pois a coragem e a abnegação de todos eles que colocando em risco as suas próprias vidas nessa madrugada histórica, permitiram que os meus sonhos, os nossos sonhos, se tornassem realidade. Relembro em nome de todos eles, essa figura ímpar de heroísmo, valentia e patriotismo, o " Capitão Salgueiro Maia" que simboliza, para o Partido Socialista neste dia, a " Revolução dos Cravos". Viva o 25 de Abril ! Viva a Democracia! Viva Portugal!

...faz hoje anos que eu fui pela primeira vez à escola. tinha apenas 6 anos e o meu pai teve que tirar uma licença para eu poder entrar, pois só quem tivesse 7 anos entrava na 1ª classe. ia bastante apreensiva, pois nao sabia o que ia encontar pela frente.
fui com o meu pai, com uma bata cor-de-rosa impecavelmente passadinha a ferro e com um grande laçarote no cabelo. quando lá chegamos fomos recebidos pela minha professora, a quem o meu pai me entregou com as seguintes palavras que até hoje nao esqueci: "dona maria da luz esta é a minha filha, se ela se portar mal a senhora "dê-lhe" que aqui na escola é a senhora que lhe dará a educaçao!"
realmente "apanhei" muito, era traquina, mas NUNCA por nao saber, pois fui sempre uma boa aluna...

...quando o meu irmao nasceu, eu deixei de comer, talvez por ciumes, eu tinha apenas 1 anito e pouco
A minha tia, que nao tinha filhos, mas tinha uma paciência levada da breca, começou a levar-me lá para casa e quando me entregava dizia: ela comeu e bem! e a minha mãe: nao entendo, ela aqui nao come nada...
Foi assim que eu comecei a ir comer todas as noites a casa dos meus tios...
Hoje invadiu-me a nostalgia. Talvez tenha sido o nevoeiro o responsável.Dizem que faz mal aos ossos - o nevoeiro, não a nostalgia, claro.
Em criança adorava o nevoeiro.
Eram dias de um fresco/suave. Ficava como que numa terra de esconde-esconde. Quanto mais cerrado mais interessante. Na minha mente não havia lugar para males de ossos, acidentes de viação...nada disso. Às vezes sentia-me quase invisível – tive sempre uma fértil imaginação.
Cheguei a imaginar-me num mundo de nevoeiro. Tentava fazer desenhos no ar, como o fazia na vidraça embaciada, mas não surtia qualquer efeito.
Era um tipo de algodão doce imaginário. Apetecia-me pegar em pedaços e degustá-los suavemente, ficando com aquela agua doce na boca até ele se desfazer. Depois, discretamente limpava os dedos ao vestido, não sem antes os ter lambido muito bem, não fosse perder-se algo. A seguir vinha a sede louca fruto do excesso de açúcar.Com sorte, talvez me dessem um gelado (sorvete) de banana. Idolatro o chocolate, mas aqueles gelados... eram assim um misto de leite com banana - tipo batido - mas em gelado, e de uma textura aveludada. Deveria ser proibido perderem-se esses sabores que nos marcam a infância.
Também deveria ser proibido ficarmos órfãos.
(para os meus pais, com saudades)

...como fazia bem tomar banho de mar de manhãzinha, para termos menos gripes no Inverno, lá íamos nós, bem cedinho até à praia.
Naquele dia resolvi que não ia chorar quando o "banheiro" nos desse os 3 mergulhos forçados no mar.
Entao quando a minha mãe nos estava a arranjar em casa, eu comecei com uma lenga-lenga: "ó mãezinha, eu hoje nao choro!" "ó mãezinha, eu hoje nao choro!" devo ter dito o mesmo mais de 20 vezes.
O pior foi quando ao dobrar a esquina da rua se viu o mar: fiz outra vez semelhante berreiro que só parou como de costume, quando a minha mãe nos serviu o leitinho quente com cevada, levado na garrafa termos e o pãozinho com manteiga e aquele "banheiro" já estava bem longe...
BIBLIOTECA ITINERANTE
Hoje trago à memória a Biblioteca Itinerante, da Fundação Calouste Gulbenkian , que durante muitos anos percorreu o país de lés-a-lés, especialmente em aldeias e vilas onde o acesso aos livros e à leitura era inexistente.
Não pretendo aqui fazer a história deste fantástico serviço, até porque há locais onde isso já é feito, como neste sítio, por exemplo, e pela Internet não faltam referências ao mesmo. Apenas de referir que o serviço foi criado pelo administrador da Fundação, Branquinho da Fonseca, em 1958.
O que quero recordar de modo especial é que a visita da Biblioteca Itinerante ao largo da minha terra acontecia uma vez por mês ou de 15 em 15 dias, sempre num dia certo, que agora não recordo, mas tenho ideia de ser a uma quarta-feira, sempre a meio da tarde, e que eu frequentei durante a década de 60. Sei que depois continuou por mais alguns anos, acabando por terminar talvez no início dos anos 90. Sei também que oficialmente o serviço durou de 1958 a 2002. Durante esse período adquiriu cerca de cinco milhões de livros (de todos os géneros) e fez 97 milhões de empréstimos. Os serviços foram então entreguesas às autarquias que serviam.
São inesquecíveis as recordações da chegada da Biblioteca Itinerante, com a sua carrinha enigmática, o modelo Citroen HY (fabricado entre os anos de 1947 a 1981), que só por si irradiava uma magia fascinante. A que vinha à minha terra era de cor cinza (mais ou menos igual à da última imagem). Tinha duas portas na parte traseira que se abriam de par-em-par e uma parte superior que abria para cima, para dar acesso ao fantástico mundo dos livros, da leitura e do fascínio das histórias e das imagens. Essa aura de reino maravilhoso era reforçado pelo tipo de leitura dos primeiros anos, onde preferencialmente eu escolhia livros de contos de fadas, repletos de reinos, reis, rainhas, princesas, gigantes, anões, fadas, feiticeiras e todo o resto da família de seres que povoam o imaginário infantil.
Aos poucos fui deixando as histórias infantis e mergulhei em livros sobre a fauna e flora, repletos de ilustrações maravilhosas e muitos outros livros sobre a terra, a história, as artes e as ciências, romances, a colecçao inteirinha do Julio Verne, etc.
Recordo ainda que aguardávamos pelo dia da visita da Biblioteca Itinerante com justificada impaciência. Todos queriam ser os primeiros a ser atendidos para melhor escolher.
Lembro-me que eram dois os senhores que acompanhavam a Biblioteca, sendo um o motorista e o outro o encarregado ou revisor, o que anotava as devoluções e as requisições.
Não tenho a certeza quanto ao número de livros que se podia requisitar, mas creio que eram cinco.
Quantas vezes eu fui a esta biblioteca, e arranjava todas as desculpas e mais algumas para levar para casa os livros todos q queria: era em nome da minha mae, da minha tia e dizia q tambem eram livros para os meus irmaos.
Que monte de livros eu levava, alguns metidos numa saca de pao (de pano pq na altura ainda nem se sabia o q era plastico) escondidinhos para ler em casa dos meus tios, enquanto jantava, q eu lá sempre tinha mais liberdade para isso.
Em minha casa podia ler, mas com "conta, peso e medida" e apagava-se cedo a luz, e tambem havia trabalhitos a fazer.
Mas eu era feliz, nao me faltava nada, até tinha livros de historias para ler: a "pousada do anjo da guarda", "o general dourakine", "os desastres de sofia" toda a colecçao azul INTEIRINHA, eu vivia "dentro" dos livros...
Por tudo isto, toda a malta da minha geração tem uma profunda memória e admiração pelo serviço da Biblioteca Itinerante, já que graças a ele viajámos no tempo por reinos maravilhosos, com histórias fascinantes e aprendemos coisas do mundo que nos rodeia. Enfim, crescemos ajudados por tudo quanto aprendemos através dos livros que num momento mágico chegavam ao largo da aldeia naquelas carrinhas maravilhosas.
...naquela noite, quando me meti debaixo da mesa da sala de jantar como habitualmente fazia, enquanto a titia ia à cozinha buscar a sopa, estava longe de imaginar que ao levantar-me iria bater com a cabeça no tampo.
a partir dessa data comecei a ter que me esconder de joelhos: tinha crescido e ninguem me avisou!
5 de junho de 1958 - 5 de junho de 2008
faz hoje 50 anos que eu fiz a minha Comunhao. data importante hein?!
LIVRO DA 1ª CLASSE (página)

LIVRO DA 1ª CLASSE (página)

O Dr. Antonio Carlos Ferreira Soares nasceu no dia 5 de Fevereiro de 1903 em Viana de Castelo, no seio de uma família distinta. Quis o destino que o “Dr. Prata” (como era conhecido pelos populares) vivesse num período marcado pela limitação da liberdade. Médico de formação, as suas qualidades transcendiam a do simples terapeuta que tratava os doentes. A sua vontade de liberdade e capacidade de escrita encaminham-no para a Revista Seara Nova, principal meio de divulgação das ideias anti-salazaristas. A 22 de Setembro de 1936 assume-se finalmente como lutador pela liberdade. Certamente foi uma decisão extremamente reflectida, já que as consequências desta decisão eram terríveis.A partir deste momento passa a ser alvo de perseguição e a clandestinidade é a única solução. Viver na clandestinidade significa perder a família, o nome, a casa e a tranquilidade. Nestes primeiros anos de ditadura, a perseguição a opositores do regime é tremenda.
Todos os que expressam opiniões divergentes das de Salazar são condenado à prisão e mesmo à morte. Os seus esconderijos favoritos localizavam-se na freguesia que o viu crescer como Homem de ideais democráticos. Um dos locais era a Igreja da freguesia. O pároco Abel escondia o amigo. Outro dos locais prediletos de refúgio era a Japoneira do cemitério de Nogueira da Regedoura.
O “Dr. Prata” tinha o dom da palavra. Numa manhã de Fevereiro de 1940, no funeral de uma jovem de 22 anos, o Dr. Carlos Ferreira Soares provoca um sentimento de revolta nos populares. As lágrimas e os aplausos misturam-se quando o Senhor doutor explica que as razões da morte desta jovem. A fome e a miséria que este regime implementou às populações mais desfavorecidas. Quando a Polícia política chega já o “Dr. Prata” tinha fugido. Mesmo na clandestinidade o médico prestava apoio às populações. Era médico na Associação Fúnebre de Socorros Mútuos de Grijó e fornecia medicamentos gratuitos. Esta vontade de ajudar levou-o à morte. Os seus disfarces duravam pouco tempo. Certa noite, dois agentes disfarçados de vendedores de cera aparecem numa mercearia vizinha da Associação. Questionam um jovem, que por lá estava, sobre os médicos que prestavam serviço na Colectividade e conseguem todas as informações que necessitavam.
Poucos dias depois, seis agentes estavam, ingenuamente, nas imediações da Associação. Tanta gente desconhecida numa terra pequena levantou suspeitas e rapidamente a população percebeu o que se estava a passar. O Dr. Carlos refugia-se rapidamente na casa mais próxima.
Não teve a mesma sorte no dia 2 de Julho de 1942. Foi morto com vários tiros de metralhadora à queima-roupa.
A Japoneira foi cortada. Nogueira da Regedoura estava de luto. A rede da Polícia Secreta funcionou outra vez. Mais um lutador pela liberdade se calava às mãos do Regime Salazarista. Muitos outros haveriam de morrer. Nos próximos tempos sairá um livro bastante completo sobre a vida deste lutador escrito pelo Dr. Armando Silva, co-autor da Monografia de Nogueira da Regedoura. O mais grotesco nisto tudo é que ainda existem portugueses (e muitos) que votam em Salazar como o maior português de sempre.
Logo após o assassinarem a PIDE, deixou o corpo numa casa de saúde, enquanto festejava numa pastelaria da rua 19 em Espinho “Ponto Chic”, onde o dono Elias Tavares abriu garrafas de champanhe celebrando com a PIDE ente gargalhadas e gritos “morte aos comunistas!”
Há testemunhos vivos. O camarada Russo o garoto das mensagens, actualmente com 78 anos e mantendo ainda hoje “tudo na cabeça sem se esquecer”, para além da família, vizinhos, camaradas e amigos. O povo em Nogueira da Regedoura e Espinho, quando soube do assassinato gritava entre soluços: “MATARAM O MEDICO DOS POBRES!” Não são histórias, muito menos mitos!
A História do PCP foi/é feita, com homens e mulheres de honra, Resistentes. Ainda hoje, nos devemos curvar pelo respeito que nos merecem! Felizmente, muitos desses Heróicos Resitentes estão vivos, para nos poderem contar! É o branqueamento do fascismo que estão a fazer. Este governo, agradece!
O livro, completamente esquecido, de A. Ferreira Soares, Casa Abatida , reeditado pela Guimarães nos anos cinquenta (?), tem uma dedicatória "à memória do seu filho o médico Antonio Carlos Ferreira Soares". Não é comum um pai dedicar um livro a um seu filho adulto, nem que este o seja à "memória", ou seja a um morto. Mas António Carlos Ferreira Soares não morreu de morte natural, mas sim assassinado pela PIDE em Julho de 1942.

...e daquela vez q eu resolvi dizer ao meu irmao mais novo, em virtude de ele nao me deixar andar no triciclo, que ia fugir para França?!
claro que só dei a volta ao "quarteirao", mas quando apareci na esquina, ja a minha mae estava à minha espera para me dar umas chineladas...
Pela estrada plana, toc, toc, toc
Guia o jumentinho uma velhinha errante
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!...
Toc, toc, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!...
E contudo alegre como um passarinho,
Toque, toque, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a corar ao sol.
Vai sem cabeçada, em liberdade franca,
O jerico ruço duma linda cor;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toc, toc, moleirinha branca
Com o galho verde duma giesta em flor.
Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toc, toc, toc, que recordação!
Minha avó ceguinha se me representa...
Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta,
Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!...
Toc, toc, toc, lindo burriquito,
Para as minhas filhas quem mo dera a mim!
Nada mais gracioso, nada mais bonito!
Quando a virgem pura foi para o Egipto,
Com certeza ia num burrico assim.
Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrelas, vivas, em cardume...
Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toc, se levanta,
Pra vestir os netos, pra acender o lume...
Toc, toc, toc, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chã!
Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar à igreja,
Baptizar-lhe a alma, prà fazer cristã!
Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vai numa frescata...
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!
Toc, toc, como o burriquito avança!
Que prazer d'outrora para os olhos meus!
Minha avó contou-me quando fui criança,
Que era assim tal qual a jumentinha mansa
Que adorou nas palhas o menino Deus...
Toc, toc, é noite... ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!...
Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
Como estremunhados querubins divinos,
Os olhitos meigos para a ver passar...
Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
Entre os milhões d'astros o luar sem véu,
O burrico pensa: Quanto milho loiro!
Quem será que mói estas farinhas d'oiro
Com a mó de jaspe que anda além no Céu!
Guerra Junqueiro