
Eu gosto:
-bicudos quentes
-a minha boneca preta
-ler o jornal no chao
-ir buscar livros à biblioteca
-brincar com as bonecas de papel
-andar no triciclo do meu mano
-passar ferias na Casa Grande de Cimo de Vila
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Créditos
sempre achei esta foto do Paizinho muito parecida com o...

Errol Flynn:

(mas aqui para nós, o Paizinho era muito mais charmoso!!!)
Ainda hoje exibo orgulhosa a pequena fotografia a preto e branco.
Ele já tinha cabelo, quase todo, branco, e eu ainda na escola primária andava.
Gostava de o ter conhecido com o cabelo às ondinhas. Um galã. Um autêntico artista de cinema.
Nunca mais esqueci o dia da foto. De mão dada, seguia altiva. Tínhamos ido à missa à Capela da Nª Sº da Ajuda. Depois fomos ver o mar, e foi aqui que apareceu o inesperado fotógrafo.
Pena ser a preto e branco. Levava metade do meu cabelo apanhado no alto da cabeça, onde era notório o grande laçarote branco. O vestido era rosa bebé, com umas aplicações, desde os ombros até à zona do umbigo, onde passava uma fita de seda igualmente rosa. Levava ainda um casaco de malha quente e de cor azul clara, feito pela mãezinha. Os sapatos eram pretos e de verniz, enfiados numas límpidas meias brancas.
Gostava de ver as fotografias a preto e branco que eram guardadas no álbum. Apresentava sempre um ar charmoso – os ossos ainda não se queixavam. Tinha realmente ar de galã, talvez tivesse sido assim que teve frutos na conquista do seu amor.
Um dia contei-lhe que em tempos tinha imitado a sua assinatura, para ele não ver as más notas da escola. Sorriu. O meu desabafo foi uma maneira de me redimir. Também lhe contei daquela vez, em que estando em casa sozinha com o Dito, distraímo-nos e começamos a jogar à bola. Azar, acertei em cheio no relógio de parede, que caiu – já não há relógios assim, pois não sofreu muitos danos. Até àquela data sempre pensou que o relógio tinha caído por desleixo do prego.
Quando me cabia a mim, a vez de limpar o pó no quarto deles, abria a porta do guarda-fatos e perdia-me entre o cheiro da roupa domingueira, sempre perfumada.
Foi muito bom tê-lo como pai – jamais o trocaria.
Foi bom vê-lo como avô.
(para os netos do meu pai)
com carinho
a.
rosamar
(este texto foi escrito pela minha irma mais nova)
23 Julho 2009
CHEIROS (Parte I)
Não caíra o Governo de Salazar. Ele simplesmente morrera.
Levei de recomendações de casa para que, quando chegasse, não contasse nada à Vóvó.

Finalmente os cheiros, caruma, eucalipto, o estrume do gado do vizinho…mas o melhor ainda estava para vir: o cheiro a leite fresco que de certeza ia ter à minha espera.
Era sempre agradável ir para a aldeia.
Adorava os cozinhados da minha avó. Ainda hoje recordo aqueles croquetes de batata (em alguns locais chamam-lhe trouxas de carne), douradinhos e acabados de fazer. Sentia-me uma princesa. A mesa girava à minha volta, ou melhor dizendo à volta dos meus paladares.
Não havia frigorífico, mas havia um compartimento muito fresco e cheio de prateleiras onde se guardavam os alimentos. Não havia supermercado mas sim a Herdade, onde tinha de tudo. Olhavam-me sempre de alto a baixo a fim de admirarem ora os meus olhos, ora o cabelo, ora o tom de pele (pois, a menina tem ido para a praia? – quem é? interrogavam-se – ah, é a mais nova da Lena de Espinho). A Herdade tinha um cheiro muito característico. Nunca encontrei ao longo da minha existência uma miscelânea de cheiros como lá. Era uma mistura de café acabado de moer-sabão clarim-açúcar refinado- bacias de plástico-marmelada-e outros que nunca soube identificar. Aqui também tinha uns maravilhosos rolos de chocolate maciço.
Para mim o dia era dividido em quatro: a manhã onde se respirava a frescura da noite, ao meio do dia com um calor insuportável e do qual nunca fui adicta, o maravilhoso fim da tarde onde às vezes me era permitido regar e podia molhar os pés em água fria sem levar um raspanete, e o anoitecer. Cada parte do dia tinha o seu cheiro. Ao fim da tarde também costumava ir para a cave (chamavam-lhe loja) andar no baloiço que estava pendurado nas traves da casa. Voava até as minhas tranças começarem a bater no tecto...a partir daí abrandava. Era um local bem fresco em contrapartida do calor de verão. Talvez a terra batida ajudasse àquela agradável temperatura.
Naquele tempo não deveria haver salmonelas, pois eu comia as gemadas que queria. Aliás, era uma obrigação a ingestão diária de gemadas.
No dia a seguir à minha chegada, tinha sempre por obrigação de ir às Cavadas, a casa da Fatinha, para me pesar. O objectivo da estadia na aldeia era de aumentar peso. Às vezes ia buscar a Nené a casa para irmos juntas – talvez fosse uma forma dela se distrair.

Era ja noite. Abri o portão, subi a ladeira, e ali estava ela estendendo-me os braços sempre tão carinhosos. Beijou- me. Senti um aconchego enorme naquele roçar de face na face e daquele hálito a maçã.
- Vóvó!!!!! O Salazar morreu!!!
bjs
a.
(para todos os que fizeram parte da minha infância)
